A quebra de realidade a cores, som, tempo e Godard.
No meio do texto anterior, no qual eu afirmava que o cinema mudo era uma barreira contra a realidade já pelo medo pelo qual ele era concebido, inseri uma citação de Truffaut no qual ele recriminava essa parede derrubada pelo avanço tecnológico do cinema e adesão de novas ferramentes para sua concepção (cinema 3D? Onde fomos parar?).
Mas a época em que Truffaut fora um cineasta foge completamente do período no qual os filmes desproviam da tecnológica para possuirem cores, som, etc. Como ele defenderia sua própria opinião em um tempo no qual, ele, submetia-se aos cárceres dos tempos modernos?
Não utilizarei seus filmes como exemplos, não sou dos maiores fãs de Truffaut, nem vi tantos de seus filmes, mas pegarei, neste texto, exemplos de filmes de seu colega e revolucionário Jean-Luc Godard.
A Cor
Quando você assiste a um filme em preto e branco, este ergue a barreira da falsidade imediatamente, mas quando ele fora filmado em cores, essa barreira se perde como nota-se em diversos trabalhos cinematográficos por aí. Como percebeste no exemplo acima, nada impede o cineasta de criar uma ruptura de realidade mesmo com um filme colorido, simplificando o feito do Godard, é apenas "colorir ainda mais". O Som
Nesse momento temos uma interrupção da trilha sonora em prol da semântica da cena, emudecer o filme além de amplicar o sentido do plano também quebra bruscamente com a realidade do filme.
Por sinal, Band à Part possui várias rupturas com a realidade se utilizando do som, provavelmente não satisfeito com a lógica quebra pela ausência de cores no filme, Godard resolveu inserir várias interrupções na trilha sonora e no som como um todo. Mas minha favorita é esta daqui:
Além de denunciar o objeto fílmico, deifica Godard ao ponto dele ser o homem que controla a jukebox, ele é quem decide se haverá música em cena, não seus atores ou o simples fato que "tocar música" está na essência da jukebox como ferramenta. Mesmo assim, o fato que mais me impressiona é que, além de juntar esses significados, a opção por remover a música insere um foco maior nas descrições feitas pelo monólogo. A movimentação dos atores e da câmera é sempre a mesma, aos poucos nossa atenções se desfoca destes, mas permanece na música que está sempre em movimento, até que ela abruptamente é interrompida e aí vêm o que interessa. Denúncia, deificação, narrativa. Perfeito, não?
O Tempo
Honestamente, existem vários outros cineastas os quais merecem entrar como exemplo nessa categoria pelos seus trabalhos constantes de manipulação temporal, mas como nos atemos a Godard desde o princípio, prossigamos por aqui.
O exemplo é a primeira cena de seu primeiro filme, no qual Godard repercutiu pelo mundo com um negócio chamado jump cut.
Antes de falar desse método de quebrar o tempo como reflexo da realidade é melhor falar um pouco do meu conceito de montagem.
1º Muita gente, erroneamente, considera montagem como o corte, mas eu veemento defendo que a montagem está inserida em cada quadro do filme, pois, pense bem, poderia haver um corte ali, se esse corte não fora aplicado, aquele quadro tinha uma razão de existir para a criação da arte do cineasta.
2º O corte é por si só um deslocamento espacial e temporal, quando esse deslocamento temporal mantém a continuidade do "tempo fílmico", ou, do tempo no qual as ações se efetuam no filme, ele é um raccord. O deslocamento espacial ocorre, pois quando um plano é cortado, o plano seguinte se diferencia na posição da câmera, logo, podes até considerar o corte como um movimento de câmera.
Um diretor que louvo, Tarkovsky, é bem conhecido pelos seus planos contemplativos e longos. De acordo com a lógica do cinema clássico, quando o plano propôs a informação a qual lhe fora empregada ele é cortado para que a história prossiga, já nos planos de demasiada duração do diretor russo, após esse "interlúdio" no qual ele transmite a clara mensagem visual, o plano continua para que a comunicação dê lugar à reflexão. Essa é uma maneira de esticar o tempo, criar o tédio no espectador é fazer com que sua noção de tempo desacelere e assim o tempo fílmico se extende.
O corte, quando não é um raccord, é um salto temporal, a questão é que o espectador já se encontra tão acostumado com tais e eles são, comumente, tão didaticamente preparados nos filmes (fade para transição temporal, por exemplo) que esse salto no tempo passa despercebido. Aí vém o jumpcut.
Na minha segunda opinião sobre montagem espero ter sido claro sobre os tipos de deslocamentos, então, o jump cut é o inverso do raccord nesse sentido. É a ausência de deslocamento espacial (na maioria das vezes) e o puro deslocamento temporal. Existem cenas de Acossado muito melhores para exemplificar isso (como da Patricia Franchini no carro, onde os planos de seu rosto sofrem pulos de acordo com a conversação), espero que aquele início seja o suficiente, especialmente os planos no interior do carro e alguns cortes secos quando Godard coloca a câmera no capô do carro e a aponta em frente, pela estrada.
Cortes secos; didatismo; acho que já tenho material para um próximo texto. Até mais.
Reitero o comentário acima. Le Mépris é meu filme favorito do Godard. Até comecei a faver uns coques espalhafatosos na cabeça para imitar você-sabe-quem. Muita gente coloca À bout de soufflé como "favorito" do cara e me pergunto; será que é o fato de ser um filme em preto e branco? Ou a qualidade técnica e enredo são realmente melhores. Não sei. Desta parte quem, tecnicamente, entende é você. Comecei a ler o livro "O Discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência" do Ismail Xavier que muito se assemelha aos assuntos tratados no seu blog. Aguardo a próxima postagem.
As grandes passagens do cinema (do mudo ao falado e do P&B ao colorido) sem dúvida trazem grandes mudanças, mas acho que a barreira ilusória que você mencionou não se altera. Obviamente, passar de uma forma a outra exige novas preocupações por parte dos diretores e alguns souberam se adaptar muito bem (Hitchcock, Ford), mostrando que não importa o suporte, sua estética segue a mesma. Outros passaram de maneira meio sofrida (Truffaut, Antonioni) mas justamente porque eles tinham ficados craques na arte do P&B, da mesma maneira que Pabst ou Murnau ficaram craques na arte do cinema silencioso. Em todo caso, parabéns pelo blog e obrigado pela visita!
Phil, Confesso que depois de ler seus escritos sobre Godard, montagem e " Bande à part" me deu vontade de rever este filme. Sim, digo rever porque de todos os filmes que assisti deste diretor, posso afirmar que adorei somente três:" O Desprezo", "Acossado" e "Pierrot le fou", "Bande à part" gostei somente, mas nunca pensaria em rever se não fosse seu encantamento expresso aqui e daí minha curiosidade de identificar todos esses elementos que você citou. Eu particularmente não gosto dessa coisa que ele insiste em fazer, de interromper, recomeçar, continuar...muitas vezes sem chegar a "nada", dando a impressão daquilo ser somente um artifício isolado de todo o resto, no qual o efeito momentâneo seria inusitado e abrupto.Acho que ele se coloca como centro do mundo(no cinema) e sua pretensão faz com que elementos e recursos utilizados escorreguem entre seus dedos. Mas o fato é que achei muito bacana seu blog e seu encantameto por esse diretor.Muita coisa que vc escreveu aqui eu não tinha conhecimento e foi legal ter lido.
nota mental: o que é a bunda da Bardot? Holy jesus.