Talvez sempre filmemos o real, biologicamente o tratando, afinal, tudo cai em nosso conhecimento, nossas experiências, nosso mundo. Tudo entra em nossos conceitos e, portanto, quando ligamos uma câmera estamos a apontando para um recorte de nosso mundo, de nossa cultura, mesmo que tal seja formado com diversos pedaços dela, não deixa de ser parte de nós.
Mas o que fazer quando a lente da câmera se volta para uma experiência pública? Quando contamos a experiência nossa, bem, o "nossa" já diz tudo; ninguém pode lhe atribuir o mesmo valor que nós, contudo, a história alheia sofre, pois existem pessoas que já a conheçam. Podemos citar vários exemplos, todos os filmes que se refletem em histórias reais ou as famigeradas cinebiografias, diminuindo a amplitude podemos colocar Vôo 93, de Paul Greengrass ou Johnny & June, a cinebiografia de Johnny Cash. Como chamá-los de cinema? Não seriam meros filmes jornalísticos, ilustrações de um passado de outrem(reconstituições), só que seguindo algumas convenções dramáticas? Esse segmento faz dessa obra cinema? Arte?
Acho que não.
Aí surge Todd Haynes, um dos mais promissores diretores americanos dos últimos 10 anos, com um filme baseado em Bob Dylan e quando este chegou, oh, que doce surpresa.
As recriações das vidas alheias são simuladas baseadas meramente no ente, ou, no que pode se ver escrito nos jornais. O indivíduo teve uma infância trágica, ficou famoso de maneira lúdica, conheceu astros diversos, casou-se, as drogas quase arruinaram sua vida, teve dois filhos e morreu. Claro, até mesmo esse tipo de cinebiografia é valorizado pelo interesse que as pessoas possuem no indivíduo além da obra dele, talvez para encontrar uma merecida empatia na incapacidade do público de chegar à concepção artística do ídolo, contudo, o que fez dele um ídolo não foi a pessoa, mas o artista, o que criou.
Apesar de I'm not there inserir vários pontos da vida de Bob Dylan, estes não vém para sanar a curiosidade do espectador, mas sim para incitá-la, isso porque o retratado no filme não é a pessoa de Bob Dylan, mas sim o que Todd Haynes considerou como as inspirações para as idéias que geraram suas criações. Deste modo, I'm not there alcança não apenas o que Dylan vivenciou, mas sim o que lhe inspirou e isso tange o que veio antes de Bob Dylan e o que ocorreu sem Bob Dylan, logo, considero que não podemos, como em uma cinebiografia ordinária, chamar este filme de "história de Bob Dylan" (o que simplesmente não o é e até lhe tira o título de "biografia"), mas sim de "mundo de Bob Dylan". Obviamente que considerando que é o "mundo de Bob Dylan sob os olhos de Todd Haynes".
Uma cinebiografia consiste em contar para o espectador o que ocorreu na vida de uma pessoa, I'm not there além de não suprir essa demanda, a instiga. Você assiste Vôo 93 e, após o filme, podes me contar uma história do que aconteceu naquele incidente, o mesmo para Johnny & June e a vida de Johnny Cash, mas após assistir a I'm not there não podes fazer o mesmo (nem se fores um aficcionado por Bob Dylan e souber tudo, já que esse conhecimento não veio do filme). É um modo tão moderno de se contar uma história pública que ela envolve os meios eletrônicos atuais, provavelmente o primeiro lugar que o espectador apelará após o final do filme para buscar as informações que lhe faltaram previamente. Assim que ele descobre a "vida" de Bob Dylan, o que o filme tenta nos entregar é seu mundo.
O mundo de Bob Dylan é o mundo de um artista e o artista não possui uma face, ele é composto de seu momento de criação o qual envolve a observação do redor, a geração de idéias e o ato de materialização delas, três funções as quais o filme cumpre muito bem em mostrar: A política da época (observação); as inspirações (idéias); as músicas em si (materialização). Assim sendo, podemos dizer que I'm not there nos livra do ente que chamamos de Bob Dylan para tentar capturar seu ser, o artista que o forma. E é uma tentativa bem sucedida não por ter alcançado o ser de Dylan, o que seria impossível, mas sim por expôr que sua intenção era de ir além de seu ente.
O artista Dylan, não possui uma face específica ou uma história linear, tampouco um nome, enquanto artista ele é apenas "eu"; o que nos leva a uma frase do filme: "Não existe 'eu'.". E aqui está a ironia de Dylan, toda exposta em celulóide.
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Só pra você não dizer que não comento.