A suspensão é um recurso muito utilizado no conto de histórias, em grande parte, ela consiste na geração de uma incógnita que busca resposta. Essa busca faz a história. Para mostrar como essa técnica de narração é antiga, Édipo Rei é um exemplo válido: "a profecia está correta?". Claro que podemos embarcar em outras questões, mas a história se locomove através do eixo daquela dúvida (ou de outra semelhante).
Partindo para o cinema, retrato Janela Indiscreta, de Hitchcock, mas poderia ser praticamente qualquer filme do gorducho como exemplo. Os fatos nos são apresentados juntamente com as descobertas do protagonista, Hitchcock até mesmo nos coloca um passo a frente dele em certo momento. Assim, a narração de Janela Indiscreta é sincera de acordo com o conhecimento de seu focalizador. Quando esta aliança entre o espectador e o focalizador é formada, Hitchcock coloca o espectador adiante, tranformando-o em um novo protagonista. Com exceção desse passo adentro, considero a narrativa de Janela Indiscreta como completamente honesta. O filme nos esconde nada, mas ao possuir um focalizador limita o que podemos saber através de seu olhar.
Podemos falar praticamente a mesma coisa com Rastros de Ódio, de John Ford, a diferença é que a história contada sem a presença de Ethan poderia ser reconstituída por ele no momento em que ele presenciasse as consequências dos fatos, como o ataque comanche. Já no filme de Hitchcock fica complicado afirmar o quanto a peça adicional poderia solucionar na resolução de nossa dúvida pendante. Podemos notar a honestidade no focalizador de Ford quando, por exemplo, ele encontra a evidência de que a sua sobrinha mais velha fora assassinada.
Essa honestidade na suspensão de informações é o que prezo como uma boa maneira de se contar uma história, pois esta não depende de esconder informações do espectador. O narrador sabe tanto quanto ele. Mas este não é um texto sobre focalizadores, mas sim sobre incógnitas que o filme gera e que nos locomovem por ele em busca de respostas.
A pergunta de Janela Indiscreta é algo como "O que houve ali? Um assassinato?"; enquanto em Rastros de Ódio é "Onde está Debbie?" ou até "O que Ethan fará ao encontrá-la?". Certos filmes apresentam a questão do "Como isso aconteceu?"; por exemplo: Crepúsculo dos Deuses, Pacto de Sangue e Condenado à Morte Escapou.
Todos esses exemplos são de narrativas honestas, onde os focalizadores não escondem informações do espectador. Quando ocorre o contrário é o que chamo de narrativa desonesta, aquela onde os focalizadores escondem coisas do espectador.
O filme que quero utilizar é Il y a longtemps que je t'aime, de Phillippe Claudel. Começamos com Juliette chegando na casa, logo somos explicitamente informados que as razões dela estar ali são obscuras, essa razão é de conhecimento de todos os focalizadores da história, os quais se inibem vergonhosamente em revelar. Juliette ficara na prisão por 15 anos sob pena de assassinato. Mas assassínio de quem? Todos os focalizadores sabem, menos o espectador. Então descobrimos que ela matara o filho de 6 anos e outra questão nos é nitidamente imposta: "Por que ela fizera isso?"
A protagonista sabe a resposta, que só nos é revelada no final do filme, claro. Após a inserção desta decisiva incógnita, pouco se pontua em cima dela e ela fica de lado para mostrar como Juliette é uma boa moça, quando a resposta vem é de maneira infantilmente moralista e piegas.
O problema do filme não consiste em apenas distorcer o fio-condutor da história, mas sim que nenhum assunto é tocado nas conversas, por mais banal que seja, antes de ser mostrado no filme. Como se as personagens não soubessem de tais coisas, mas elas obviamente sabiam. A história, deste modo, não se carrega sozinha, mas sim completamente manipulada, subestimando o espectador, colocando as informações apenas quando elas convém e não quando elas existem. É como aquele tio chato que retoma a piada do início pois esquecera de dizer que a cor do cavalo era azul. Perde a graça.
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