| terça-feira, 24 de novembro de 2009 |
| O Mal dos Tópicos |
Há um nítido problema quando existe uma obrigação ao se escrever uma análise: quando não há o que analisar dentre os tópicos básicos inventa-se algo. Dizia o ditado “quem procura acha” e isso vale para buscas de abordagens dentro de filmes, como um indivíduo que assiste O Rei Leão procurando por mensagens subliminares, garanto que aquelas nuvens desenhadas nunca serão tão indecentes.
Quando falamos em Mal dos Trópicos, de Apichatpong Weeraktheshul (eu não pesquisei pra escrever o sobrenome dele, acho mais divertido assim) existe uma coisa que sempre intriga o espectador “crítico” que seria a conexão dentre os dois segmentos do filme. Aprendemos, em nossa experiência com filmes, a juntar os blocos, é assim que compreendemos o processo de montagem e, por mais absurda que possa ser a lacuna entre dois blocos fílmicos, esforçamo-nos para preenchê-la.
Existem pistas que conectam os dois segmentos de Mal dos Trópicos, mas eu não consigo visualizá-las sem ver Apichatpong dando um sorriso de canto de boca, como também imagino Antonioni colocando o título no roteiro de A Aventura. Mas acho que o mais importante é: nesse período onde é importante que o cinema se renove, se desmonte, se mescle e se discuta, qual a validade de discutir um filme como Mal dos Trópicos caso tal fosse apenas um caso de “narrativa complexa”?
Temos diversos filmes de narrativas complexas e razoavelmente incompreensíveis, como Inland Empire, A Cor do Romã, Ano Passado em Marienbad, dentre outros, entretanto, são filmes que se expõe como incompreensíveis desde a primeira instância. São experiências diferentes, ser “convidado pelo filme” para uma experiência fora do modelo “contar histórias normalmente” ou ser surpreendido por um filme assim. Na primeira você simplesmente deixa a expectativa narrativa em casa e vai ao cinema, na segunda você sai da sessão abismado com uma dessas duas reações: 1) quer rever o filme; 2) xinga o filme e avisa todos teus amigos que ele não vale a pena.
Mas dentre os filmes que pedem para deixares a obviedade narrativa em casa, Mal dos Trópicos é a víbora do reino fílmico. Já estamos habituados com filmes que misturam ficção e documentário, misturando-os e confundindo-nos, alguns de maneira mais camuflada, como os mockumentaries e outros mais abertamente, como o cinema de Kiarostami. Esses filmes acabam por desmistificar o cinema como simulácro de realidade, afinal, a sensação é de realmente desconhecer como aquilo foi feito, ou do quão ficcional é tal história. Já em Mal dos Trópicos temos dois blocos de ficção, não há diálogo entre ficção e realidade, tudo ali tende para a ficção (macacos que falam!), a intriga ali fica no por quê desses dois blocos estarem no mesmo filme.
Não que a obra de Weerasethakul fuja da narrativa, afinal, não sei como uma arte que se baseia em tempo/duração pode fugir disso em um conceito mais fragmentado, entretanto estamos discutindo sobre um cara que saiu do video-arte/videoclipe; estava habituado e, quiçá, confortável dentro de meios onde o “contar histórias” é irrelevante, já vinha brincando com as questões que segregam documentário e ficção (Mysterious Object at Noon) e sobre a questão do “o que é um filme?” (Blissfully Yours). Acho que vendo a que esse diretor veio para o cinema pelos seus trabalhos anteriores é perceptível que seu intuito é muito maior em “discutir o cinema” a “fazer você pensar que ele está tirando da sua cara quando você entende nada de seus filmes”.
É nisso que vejo o trunfo de Mal dos Trópicos, ele nos obriga a repensar nosso ato vicioso de criar pontes entre os fragmentos fílmicos. Não é à toa que há um longo hiato em tela preta entre as duas partes do filme, afinal, é como se um novo filme estivesse a começar. Talvez haja um por quê para esses dois blocos estarem no mesmo filme, ambos falam de amores socialmente coibidos, mas expostos de uma maneira tão bela dentro do filme que tornam-se amores como quaisquer outros. É possível conectarmos temáticas e estéticas, assim como é viável fazê-lo em qualquer filme, mas Mal dos Trópicos parece ser maior que isso ao abordar (ou até mesmo nos enganar à sua maneira) a maneira como vemos cinema hoje. As histórias ali contadas tornam-se pequenas próximas da ambição do filme, tanto que sinto que poderiam haver outras ali contanto que possuíssem “falsas pistas” que as ligassem.
“Quem procura, acha” e, certamente, quem buscar ligações entre os dois segmentos certamente as encontrará nitidamente, mas não gosto de pensar assim, acho que a incógnita que esse filme me gera é tão superior a qualquer história que transformá-lo em um conto seria desvirtuá-lo de um valor que assim prefiro manter. Deixo que outros optem por esmiuçar a narrativa de Mal dos Trópicos, eu fico com minha visão aqui exposta, qual está certa e qual está errada ninguém pode dizer além do próprio Joe. |
posted by Phillip @ 12:16  |
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