| terça-feira, 24 de novembro de 2009 |
| O Eclipse, de Michelangelo Antonioni |
A relação que tenho com O Eclipse e toda a trilogia da incomunicabilidade de Antonioni (formada pelos anteriores A Aventura e A Noite) é muito íntima, sendo tais iniciadores de minha admiração pelo cinema. O Eclipse, em particular, me marcou por ter sido um dos filmes que mais me chocou dentro dos quais assisti, espero salientar os por quês disso no decorrer do texto.
Existem dois elementos que considero muito marcados e, particularmente, geniais nos filmes da trilogia e em Deserto Vermelho: os eventos vagos e a importância do ambiente. O primeiro tópico tem como óbvia exemplificação o desaparecimento de Anna em A Aventura, mas dentro de um quesito que considero mais importante na obra de Antonioni, esse exemplo não soa tão bem. As personagens de Antonioni são carentes de um “viver”, elas precisam se provar que estão vivas constantemente e assim preencher esse vazio que possuem. Por isso que os burgueses da A Aventura quebram vasos caríssimos e Vitt imita uma dança tribal africana em O Eclipse. Esses são eventos que desembocam em uma exterioridade narrativa nula, não são de uma importância a qual seria necessária dentro de uma narrativa clássica. Em suma, não fazem parte de uma reação em cadeia de eventos.
Esses eventos sem relevância ou extensão narrativa do cinema de Antonioni são, provavelmente, a síntese dos filmes de sua trilogia. Se a arte imita a vida, Antonioni vê a vida e, mais especificamente, os relacionamentos dela como vagos, desprovidos de propósitos e, quiçá, irrelevantes, enquanto ao mesmo tempo são necessários para suprir uma carência inexplicável. Todos os relacionamentos tendem ao desmantelamento ou à desgraça, assim começa Sandro e Claudia em A Aventura; Lidia e Giovanni já começam com um coelho morto nas mãos em A Noite, mas em O Eclipse o relacionamento de Vittoria e Piero parece que nem ao menos se concretizará. O coelho morto em O Eclipse é exposto em seu início e logo perde a relevância, como se fosse um diferente desenlace de A Noite.
Os dois primeiros filmes da trilogia sempre caminham rumo ao rompimento, à constatação da efemeridade do amor, já O Eclipse aparenta ser otimista, é um jogo de sedução entre Vittoria e Piero onde, aparentemente, nada os impede de ficarem juntos além de suas próprias vontades e por essa razão que O Eclipse me chocou como poucos filmes o fizeram. Tudo parece correr bem nesse jogo de sedução, quando Vittoria e Piero concretizam seu romance/desejo, nos outros dois filmes Sandra já estaria traindo Claudia no hotel e Giovanni já estaria tentando estuprar Moreau no gramado. Enquanto tudo estaria definitivamente acabado em A Aventura e A Noite, em O Eclipse tudo estaria apenas começando.
Mas nos três filmes os processos narrativos são semelhantes, essa constelação de eventos sem significância que, na minha opinião, nos preparam para um desfecho que tenta salientar a irrelevância dos relacionamentos e os seus objetivos em ambos os três filmes é o mesmo, entretanto, os eventos de importância narrativa nos dois primeiros filmes nos carregam para um evento trágico, em O Eclipse eles são otimistas, é, realmente, um relacionamento com pessoas sem problemas ou motivações para as manterem longe uma da outra além delas mesmas. Minhas recordações me obrigam a largar a linguagem formal por certo período desse texto, pois a maldita (e belíssima) cena final, aquela sequência de planos documentais me deixou com uma depressão de uma semana. Nessa semana ouvi comentários sobre uma não compreensão dessa cena, ora, é, talvez, o final mais pessimista da história do cinema e quando digo “pessimista” não é no cunho ordinário, mas no de Schoppenhauer, onde indica que “nada possui saída”. Os dois primeiros filmes de Antonioni não são pessimistas, existe uma saída por mais trágica que ela seja, aliás, sempre há uma saída, mesmo em filmes que muitos chamam de pessimistas como O Sétimo Selo ou O Discreto Charme da Burguesia, talvez apenas Haneke, na contemporaneidade, alcançou um estado pessimista tão bem quanto o final de O Eclipse.
Eu preciso recapitular alguns fatos antes de dissecar o desfecho de O Eclipse. Os relacionamentos de A Aventura e A Noite tendem ao fracasso completo dentro da narrativa, sendo já fracassados por existirem ou com um dilema que o freia, já O Eclipse possui um relacionamento normal com nada a bloquear os cônjuges. É muito mais fácil se identificar com o jogo de O Eclipse, especialmente na alegre catarse da concretização do relacionamento. Aí vem a maldita sequência de cenas que me abatera, enquanto tudo tende ao fim nos outros dois, essa sequência é um choque, ela quebra todo o sucesso da relação de Vittoria e Piero e repete a mensagem que era clara nos outros dois filmes: Todo relacionamento é efêmero e irrelevante. Para deixar ainda mais claro, caso não tenha sido notado, todos os planos incluem locais que Piero e Vittoria cruzaram, porém (e muito mais importante), todos incluem movimentos de fim ou vazio. O esguichador de água é fechado; a água escoa do tonel e a (traumatizante para mim) lâmpada se apaga. A menasgem é bem clara, não importa quão sucessivo seja o início de um relacionamento, ele possui fim marcado, ele não possui saída
Apêndice
Antonioni e o ambiente
Eu citei o uso do ambiente nos filmes de Antonioni no texto anterior, mas gostei tanto de seu final que achei sem sentido prolongá-lo para abordar esse quesito. Para quem assistiu aos filmes da trilogia da incomunicabilidade, há de se notar que eles são muito mais baseados em mudanças interiores a exteriores, a questão é que Antonioni se propõe a exibir não apenas isso, mas também o vazio das personagens dentro do próprio uso do ambiente, sendo tal tudo o que circunda as personagens da cena, podemos concluir que Antonioni faz um uso milimétrico da misè-en-scene, acho que todo grande diretor faz isso, afinal, deve ser por isso que ele é o que é, mas enquanto essa milimétrica importância pode soar muito tênue (O Samurai, de Melville) e até apenas esteticamente aplicada (Opera, de Argento), quem sabe um auxílio na geração da situação (De Olhos bem Fechados, de Kubrick) no cinema de Antonioni o ambiente é, simplesmente, tudo.
A Aventura ficou conhecido não apenas pelas vaias em Cannes, mas também pela profundidade de campo empregada em seus enquadramentos, diferente de Cidadão Kane ou A Regra do Jogo onde tal profundidade levava de um evento a outro, uma personagem a outra, em A Aventura a profundidade carrega o foco de uma personagem para o vazio. A quantidade de planos abertos, nos três filmes da trilogia e, também, em Deserto Vermelho, aumentam essa relevância do ambiente maior que a personagem, mas tão vazio quanto. Os filmes de Antonioni podem até ser criticados por terem “enquadramentos mal-feitos”, “estranhos”, mas não sei como tais enquadramentos poderiam ser refeitos com o mesmo valor de relevância ao ambiente e, logo, aos sentimentos das personagens. Ou, simplesmente, como refazer a belíssima cena da busca por Anna na ilha vulcânica em A Aventura?
O ambiente em O Eclipse expõe as mesmas funções, até mesmo cobrindo certas lacunas deixadas pelos filmes anteriores, pois ele nos faz crer que não é necessário o vazio no enquadramento para termos esse sentimento de incomunicabilidade, basta dar bons olhos às sequências da bolsa de valores. Em O Eclipse, o ambiente é o pilar da sequência final, que eu espero ter falado o bastante já, mas complementando sob esse tópico, não existem personagens na sequência final, transeuntes sim, mas mera parte do próprio ambiente. E nunca o ambiente nos filmes de Antonioni foram tão completos em transpor o vazio e a efemeridade como no final documental de O Eclipse. |
posted by Phillip @ 12:19  |
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