terça-feira, 24 de novembro de 2009
10 cenas, 2 câmeras e um carro.
Ten, de Abbas Kiarostami, é um filme dividido em dez segmentos, cada um deles corresponde a uma conversação que a motorista/mãe/mulher possui com um de seus passageiros. Um tema que muito recorre através dos diálogos dados no filme é a separação, especialmente a entre a motorista/mãe/mulher (que vou começar a citar pelo nome da atriz: Mania Akbari) e o pai de seu filho, mas que ressoa por outros meios a vida da noiva, da irmã e da senhora que vai rezar (que é separada do marido e do filho de 12 anos).

O filme não possui uma cronologia exata, não é por que as sequências procedem como um prolongar de dia (manhã, tarde, noite, manhã...) que o filme assume uma ordem perante o que expõe. O encontro com a senhora que vai rezar, na ordem do filme, vem antes do momento em que Akbari a cita para a noiva (ou a irmã, esqueci), todavia isso não exibe uma lógica para com a temporalidade do filme, o encontro com a senhora poderia ter se dado dias, meses antes. Assim, não há como afirmar que o filme se prende em um espaço de um a três dias, de acordo com a passagem do Sol.

É falho citar Akbari como uma suposta focalizadora da narrativa do filme, pois não é através da presença dela que a imagem transcorre, mas sim sob a presença de uma personagem dentro do carro. Válido é citar, então, o carro como focalizador do filme. No único plano feito de fora do carro, após a prostituta sair dele e encontrar um cliente, a câmera é posicionada tão distantemente que há a impressão de que aquilo é o ponto de vista de Akbari, observando uma liberdade que uma mulher casada como ela jamais poderia obter. Após certa pesquisa (a.k.a. google) descobri que nenhuma prostituta quis participar do filme e por essa razão a imagem dela jamais aparece na sequencia que participa. Mas esse plano externo, deslocado do ambiente do filme é, talvez, o único plano “fabricado” que pode-se afirmar com convicção ali.

Duas câmeras digitais foram instaladas dentro de um carro, uma para o campo e outra para o contra-campo. Todos os diálogos foram feitos a partir de certa improvisação, mesmo baseados e criados anteriormente através de conversações entre Kiarostami e seus atores, discutindo os problemas de suas vidas reais e que sucederam em interpretações de papéis de si próprios no filme. Kiarostami afirmou que este é um filme sem diretor, o que não posso afirmar, mas é sem dúvida uma tentativa de distanciamento da figura do diretor/autor no filme. Ele decidiu o posicionamento da câmera, do banco do carro, o figurino das personagens; aprovou cada corte feito pela montagem, mas falta aquela responsabilidade milimétrica na misè-en-scene que nota-se nos “autores” devido à importância com a qual a tratam. Para constatar, não digo que Ten é um filme sem misè-en-scene, isso seria estúpido, mas sim que ele é um filme com uma misè-en-scene aberta.

Entretanto, é no plano da prostituta, o plano deslocado, que a figura do diretor Kiarostami transparece: ali não houve improviso, não houve atuação de si mesmo. Apesar de ser uma imagem clandestina, provavelmente uma câmera digital em mãos da equipe de filmagem buscando por uma prostituta em serviço para capturar uma imagem do momento em que aceita uma oferta. Poderia ser Kiarostami segurando aquela câmera enquanto pára o carro próximo à uma esquina de prostíbulos após um dia de filmagens. Nesse plano, estático e estável, podemos atestar uma mão nítida de Kiarostami ali: não é um par de câmeras que é ligada, o carro vai e há ninguém ali para comandar os atores em ação, é uma situação onde a câmera foi ligada sabendo-se o que viria, pois caso não se soubesse partiriam para outra prostituta perambulando.

Claro que a prostituta pode ser alguém da equipe, a Akbari pode estar segurando a câmera e tudo aquilo foi orquestrado de uma maneira completamente diferente, mas acho que a maior graça em Kiarostami é isso mesmo: supor e supor mais, mas não possuir espaço para concluir.
posted by Phillip @ 17:48  
0 Comments:

Postar um comentário

<< Home
 
 
Criador

Previous Posts
Archives
Shoutbox

Mais Phil
Orkut
Cineclube
Facebook
Twitter
Flixster
Criticker
Last FM
Alheios
chama piloto
je ne regrette rien
assim falou szabatura
21st century schizoid man
god bless insomnia
Template By
Free Blogger Templates
© Wax Simulacra