terça-feira, 26 de maio de 2009
Olhos de Serpente, de Abel Ferrara
Quando uma imagem discute outra imagem, a primeira revela a falsa veracidade que a segunda impõe, já a exibição do mecanismo cinematográfico leva à reflexão sobre a realidade da primeira. Em Olhos de Serpente temos a imagem que discute a imagem e se coloca em xeque. Estas imagens se expôe e se dependem: a primeira, do filme como um todo, precisa da segunda para desmascará-la, enquanto a segunda, o filme interior, depende do todo para se sustentar.

Mas Ferrara leva a falsidade cinematográfica a um ponto onde se revela a figura do ator, esta que sabemos da existência, mas jamais a vemos, pois quando a figura do ator se exalta, o que vemos é a personagem. Com Madonna e Russo há, inicialmente, uma divisão entre a personagem e a pessoa, que logo se esvai já que Ferrara não tenta enganar o espectador com sua obra, deixando apenas a figura do diretor como íntegra de personalidade até o momento em que ele assume a personagem de Russo, na discussão no trailer (e posteriormente a postura redentora da personagem de Madonna ao revelar suas traições para a esposa).

Além da mescla que ocorre nas personagens de ambas as imagens do filme, Ferrara exibe uma diferenciação estética e temporal entre as imagens no início de seu filme, mas que também se perde em seu decorrer. A imagem sustentadora é documentária, de estética granulada, sem cortes, enquanto a imagem sustentada é esteticamente limpa e entrecortada dentro da cena. O uso do corte na imagem sustentada carrega a imagem para um anacronismo: se a filmagem ocorre no tempo fílmico do presente, ou seja, na produção do filme, ele não poderia estar editada, isso desloca um tempo futuro para o presente fílmico. É o que há de ser, ao menos se interpretarmos essa montagem prematura como fruto do desejo do diretor.

No prolongamento do filme as personagens, o corte e a estética invadem às imagens as quais elas não fazem parte primordialmente, assim, Olhos de Serpente começa com a disposição de duas imagens diferentes, para terminar com apenas uma, quase como uma imagem refletida em um espelho, não foi à toa que o nome dado à imagem sustentada seja Mother of Mirrors.

Em uma das cenas onde a imagem sustentadora exibe o mecanismo de produção da imagem sustentada temos a claquete exposta pela primeira vez, nas suas inscrições não há o nome de Eddie (a personagem do diretor interpretada por Harvey Keitel), mas sim A. Ferrara e, também, Mother of Mirrors dá lugar a Snake Eyes (nome do filme na produção e nos EUA). Essa invasão externa ao mundo cinematográfico é a motivação definitiva para a quebra da personagem do diretor na imagem sustentadora, é a admissão de que nem mesmo na falsidade cinematográfica onde Eddie é o ditador da imagem sustentada, ele possui o controle dela. É sua exposição como mera personagem e a inserção da figura do diretor real no meio.

Sua confissão como personagem é o sacrifício que Eddie faz para prosseguir com seu filme, assim como Herzog diz que sua obra não o deixará feliz até sua morte, pois antes da morte não há obra, há apenas a necessidade de sua continuidade, Tarkovsky diz que o ato de fazer cinema é um ato de sacrifício do indivíduo. Unindo essas duas opiniões de cineastas distintos, podemos presumir de onde vêm o Dangerous Game do título original, assim como a obra de Eddie, que com o desfecho do filme a tem em forma, no subir dos créditos sua personagem fica no passado, morre e sua obra se concretiza.
posted by Phillip @ 01:20   0 comments
Promessa política (o)
Voltarei a escrever sobre cinema para meus fantasmas em breve, só para não ficar sem nada, vai meu texto sobre Olhos de Serpente, do Abel Ferrara, escrito para o Cineclube Rogério Sganzerla a seguir.
posted by Phillip @ 01:18   0 comments
quarta-feira, 13 de maio de 2009
O choque global
Falei bastante de cinema mudo por aqui, bem, gosto muito de tal período e o meu TCC tem muita relação com tal momento da história do cinema. Mas a vinda do cinema sonoro ofereceu ao cinema algo que ele não possuía anteriormente: o silêncio.

Exatamente, talvez essa fora a maior aquisição do cinema com o som. Deixe-me explicar: antes o cinema não possuia escolha, o filme era sempre silêncio, com o som isso se tornou opcional. Quem tem boca vai à Roma, logo fala, quem tem boca e não fala, choca na primeira instância, como a atriz em Persona, de Bergman.

O silêncio é importante no que eu quero falar agora, pois o importante do título não é a palavra "choque", ela é conseqüência, mas sim a palavra "global": O cinema é uma arte do mundo, assim como a música e a poesia: ela pode estar em todo o mundo ao mesmo tempo, diferente da pintura, da escultura e do teatro (especialmente nesta última, pois a maior qualidade do teatro é ser a mais volátil das artes).

O cinema é uma arte global, mas para isso, azar o qual apenas a música não sofre, ela precisa ser compreendida dentre as numerosas línguas do mundo. Ela precisa ser traduzida.

A poesia sofre com a tradução e há tempos contesta ela. Li o Flores do Mal de Baudelaire em português e em francês, sendo que no francês eu entendi uma palavra e meia, mesmo assim, gostei mais. Questões sonoras e estéticas nas quais a poesia se baseia sempre.

Já o cinema não adquire outro sentido, ele ganha sentidos adicionais, o que é ruim, pois esses sentidos aleatórios não foram propostos pelos artistas (com uma pequena exceção que será citada mais tarde).

O recurso mais básico para a globalização do filme é a legendagem, certamente não é tão drástico quanto a dublagem, mas isso não o imuniza da drasticidade. A inserção da legenda é um faux raccord: Temos o plano calado e então vêm a legenda, nossa atenção se desvia para ela como se fosse um corte falso. É um choque. Assim sendo, a legenda distorce nossa atenção para com o filme, o plano e isso acarreta em interpretações diferentes da obra, pois o tempo que fora inserido no plano fora especulado para que causasse um efeito exato, o qual perde poder com o faux raccord causado pela entrada das legendas. Deixe-me dar um exemplo babaca: em Clube da Luta, Fincher insere flashs de imagens no decorrer do filme, tais duram um fotograma ou dois, mas sua inserção os confere como faux raccords, naquele 1/24 (25 ou 30) segundos um plano completamente novo surgiu e nos cutucou: desviou nossa atenção. Ao menos ali era a intenção do Fincher, mas na legendagem isso foge do controle do artista, com exceção dos Straub.

Provavelmente notando a seriedade desse problema, o casal Straub controlava a inserção de legendas em seus filmes, a maioria deles não possui uma "legendagem completa", assim, temos certas cenas nas quais não podemos compreender a significância do que é proferido na voz. Honestamente: que bom.
posted by Phillip @ 05:59   0 comments
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