quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Ilha das Maçãs


E quando o lixo deixa de ser brincadeira para ser arte?

Agnès Varda em Os Catadores e a Catadora

Com as sobras da construção de uma casa, meu pai organizou a feitura de uma pequena casa que os jovens da família pudessem brincar. Ela tinha dois por três metros, pintada de azul e foi o palco principal de minha infância. Com o amadurecimento dos jovens, a “casinha” tornou-se um depósito de produtor agrícolas, como banha de porco que escorria e removia a tinta do assoalho de madeira. A partir desse momento perdeu-se o “brinquedo” do local, o intuito de me divertir. Naquele meu instante de transação entre fases da maturidade aquele novo depósito era a imagem nostálgica de minha infância. Apenas quando tornou-se algo que me nada valia cotidianamente que aquilo e tornou um objeto artístico.

Se algo nos oferece o prazer da arte, pode não fazê-lo para outrem, inúmeros foram os desenhos e documentos que para mim eram de suma importância, a qual transcendia a história, foram jogados no lixo pela minha mãe, por ver valor nenhum naquela “tralha”.

Carregando meu exemplo pessoal além, Duchamp encontrou o mictório que tornaria-se uma obra de arte no valor de 6 milhões de euros em uma lixeira. Enquanto para o dadaísta aquilo propunha uma oportunidade artística, para o antigo dono dela, nada representava, tanto que foi parar no lixo.

Deste modo, creio que o lixo e a arte possuem uma característica em comum: são inúteis dentro de uma funcionalidade que altere o meio social. Quando me refiro dessa maneira abro um parêntese para salientar que o lixo aqui não é como lixo coletivo, lixo nuclear, uma grande porção de lixo, tampouco arte como veículo político (Riefenstahl; Eisenstein).

Para os catadores do filme de Varda, o lixo possui uma função específica em seus meios: sobrevivência. A maçã que temos em nossas cozinhas está lá para nos alimentar caso necessitemos, quem sabe em breve a jogaremos no lixo por causa de uma pequena mancha que nela surgiu. A partir do momento em que ela se torna lixo, passa a ser inútil. No lixo ela pode ser coletada por alguém, que por ventura, pode vir a observá-la com o mesmo sentido de alimentação que ela possuía para a primeira personagem do exemplo ou, em outro caso, pode ver um respaldo de seu passado naquela maçã manchada e decide por manter a maçã até sua podridão, assim como namorados mantém rosas sabendo que elas murcham.

Tudo está destinado à inutilidade, desde a energia (que torna-se calor) como a matéria (que tende a decompor-se), a manutenção do mundo depende de nossa maneira de lidar com o lixo e, nesse caso, ou se satura o objeto até não lhe restar mais nada, ou o transforma em um objeto artístico.

Os artistas que fazem suas obras com materiais providos do lixo dão forma mimética em fronte aos objetos artísticos comuns de nosso mundo (a escultura é certamente o melhor exemplo) tendo em vista o fim da dicotomia que a interpretação do lixo pode gerar entre objeto que ainda possui uma função em nosso meio e objeto como obra de arte. O “artista do lixo” pretende anular a possível função social do lixo completamente, para assim não dar espaço para interpretações de sua obra além de um objeto artístico.

Aos poucos, tudo se perde, como dito antes, logo não é àtoa que Varda utilize um filme que retrata a significância do lixo para certas faixas da sociedade para abordar seu envelhecimento. Varda está se tornando lixo, o que não a faz deixar de ser material para uma obra de arte.

posted by Phillip @ 00:30   0 comments
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